C15:0 e Doença Cardiovascular
Doença cardiovascular é a principal causa de morte no mundo moderno, mesmo com toda a evolução da medicina.
No século passado se entendia que a gordura saturada era o principal causador de obstrução das artérias e infarto do miocárdio.
Esses conceitos vem perdendo consistência, pois se condenavam todas as gorduras saturadas, algo sem sentido.
É preciso entender que não são as gorduras saturadas vilãs, e uma em especial vem ganhando bastante atenção.
Trata-se do ácido pentadecanoico (C15:0), encontrado primariamente na gordura dos laticínios, com importante efeito protetor cardiovascular.
Crescimento de doenças cardiovasculares
No começo do século passado, doença cardiovascular era muito rara, porém em 1950 houve um crescimento de incidência e na década de 60, a mortalidade chegou ao pico de 40% das causas de morte.
Entre 1970 e 2010, essa mortalidade caiu cerca de 70%.
Motivos causadores desse aumento
A teoria fraudulenta da hipótese que a causa de doença cardíaca era a dieta, propôs a suspensão da ingesta de gordura saturada, que aumentaria o colesterol, causando doença cardiovascular.
Houve então a substituição do uso de gorduras saturadas boas por óleos vegetais, e o encorajamento do uso de produtos de baixo teor de gordura, manteiga, banha e todos os laticínios ricos em gordura, foram substituídos por margarina, óleos vegetais refinados e laticínios sem gorduras.
Os carboidratos refinados ocupam o espaço deixado pela redução de consumo de gordura.
Assim esses ácidos graxos saturados de cadeia curta deixaram de ser estudados naquele momento, como o C15:0.
Com isso, aumentou a obesidade, diabetes, hipertensão e síndrome metabólica.
Da vaca para o seu prato
C15:0 se forma inicialmente no rúmen da vaca, sendo os laticínios gordurosos a mais rica fonte dietética.
Leite integral, manteiga, queijo e iogurte, contém os mais altos níveis aonde os ácidos graxos de cadeia curta geram cerca de 2% do total de gorduras, em C15:0 e C17:0.
Síntese microbiana no rúmen
Quando os micróbios no rúmen fermentam as fibras dietéticas, geram o propionato, um ácido graxo de cadeia curta.
Esse é convertido em propionil CoA formando gorduras de cadeia curta, como C15:0 e C17:0, que são incorporados nos tecidos da vaca e liberado no leite.
Gordura do leite é a principal fonte
Graças ao processo microbiano no rúmen, a gordura do laticínio contém as maiores concentrações de C15:0 em relação a outros alimentos como o leite integral, manteiga e queijos.
Já os produtos com pouca gordura, como leite desnatado contém bem menos.
Depois do leite gorduroso, a carne bovina é a maior fonte de C15:0.
Certos peixes e plantas fornecem só elementos traço.
Nas últimas décadas, pelo aumento do consumo de leite sem gorduras e/ou dieta a base de vegetais, a média de C15:0 caiu bastante gerando consequências para a saúde.
O que os estudos revelam sobre C15:0
Um número crescente de estudos populacionais de longa duração e metanalise mostram:
Redução de risco cardiovascular
Estudo Sueco de 2021, mostra redução de 25% de risco nos que ingerem C15:0 comparado com os que não ingerem C15:0.
Metanalise também de 2021 com 18 estudos prospectivos na Europa, USA, Ásia e Austrália, mostra que participantes que tinham C15:0 mais alto, tinham 12% de redução de risco cardiovascular comparado com os que tinham níveis baixos.
Doença coronariana
No Cardiovascular Health Study, cada desvio-padrão de aumento de C15:0 no plasma, foi correlacionado com 19% de redução de risco coronariano.
De modo similar, o estudo MESA, mostra que quanto maior a presença de ácidos graxos de cadeia ímpar como o C15:0, menor a presença de cálcio nas artérias e poucos eventos cardíacos.
Risco de derrame
O relatório Holandês, mostra que gorduras lácteas de cadeia ímpar eram associados com menor risco de derrame, especialmente o hemorrágico.
Proteção contra falência cardíaca
Estudo de 22 anos de segmento realizado pela Cardiovascular Health Study, mostra que participantes com maior concentração de gordura saturada, como o ácido pentadecanoico (C15:0), tiveram menor incidência de casos de falência cardíaca.
Redução de risco de Diabetes tipo 2
Metanalise publicada em 2022 na Frontiers in Nutrition de 8 estudos, mostra que alta concentração de C15:0 tem redução de risco de diabetes, sendo que para cada desvio padrão aumentado de C15:0, teve 14% de redução de risco de diabetes.
Como o C15:0 protege o coração
Os efeitos cardio metabólicos ocorrem múltiplos mecanismos gerando:
– redução de colesterol total, triglicérides e de gordura hepática
– elevação do HDL colesterol
– redução de proteínas inflamatórias (citoquinas)
– melhora da função endotelial
– disponibilidade de óxido nítrico na circulação, inibindo efeito deletérico de gorduras desfavoráveis ás artérias
– melhor sensibilidade à insulina
– restauração da função mitocondrial, reduzindo espécies reativas de oxigênio (ROS) e aumento da produção de ATP
– melhora da pressão arterial, pois estimula óxido nítrico (NO) que promovem vasodilatação e relaxamento vascular.
Como aumentar ingesta de C15:0
As estratégicas diárias que devem ser consideradas na dieta.
Consumir alimentos ricos nessa gordura como:
– laticínios integrais não pasteurizados de animais criados à pasto. Um copo desse leite fornece 100 mg de C15:0
– carne de gado criado à pasto é a que contém mais C15:0. Nos animais alimentos com ração é menor essa concentração
– manteiga de vacas criadas à pasto
– queijo integral com coalho animal
– laticínios fermentados como iogurte ou kefir
– ovos de galinhas que são criadas soltas
Referências bibliográficas:
– WHO, Cardiovascular Diseases (CVDs)
– Curr Opin Endocrinol Diabetes Obes. 2022 Dec 8;30(1):65-71
– Circulation. 2025;151:e41-e660
– PLoS Med. 2021;18:e1003763
– J Am Heart Assoc. 2019;8:e012881
– Crit Rev Food Sci Nutr. 2018;58:1122-1130
– Front Nutr. 2022;9:963471
– Nutrients. 2023;15:4607
– Diabetologia. 2023;66:1460-1471
– Metabolites 2024, 14(7), 355











