Alimentação

Será que eu devo consumir gordura?

Nunca antes na história da nutrição humana falou-se tanto sobre o papel das gorduras e óleos (tecnicamente chamados por lípides); jornais e revistas estão cheios de artigos sobre o assunto e programas de rádio e televisão têm falado sobre isso com grande frequência. Isso prova que as discussões acerca da gordura estão mesmo em evidência.

Acontece, que desde que o mundo é mundo, nada é perfeito e, quase todos esses artigos e até mesmo os livros têm sido escritos por indivíduos que não têm treinamento científico verdadeiro em óleos e gorduras. E infelizmente, muito do que eles têm falado é incorreto ou completamente inaceitável. Além disso, nos textos sobre nutrição e alimentação divulgados pelos mais variados veículos, há tantos erros, especialmente sobre gordura e óleos, que mal dá para acreditar como uma pessoa foi capaz de dizer tudo aquilo. Individualmente, podem até haver erros por falta de cuidado, mas coletivamente eles têm sido muito frequentes.

Conforme esses enganos vão sendo repetidos para os estudantes de geração em geração, eles geram uma recomendação alimentar cientificamente falsa e potencialmente perigosa.

Recentemente o FDA resolveu estudar e banir definitivamente as gorduras trans de suas indicações pelos malefícios sabidos; isso se deu devido à pressão da indiscutível avalanche de estudos e confirmações que garantem que estas gorduras estão alimentando as principais doenças degenerativas do mundo moderno, como a obesidade, diabetes, doença cardiovascular, Alzheimer entre outras.

É evidente a deterioração da saúde humana que pede a tomada de decisão rápida para buscar uma recuperação com atitudes mais sensíveis, claras e baseadas no bom senso e no que os estudos realmente têm mostrado.

Por outro lado, infelizmente há um conflito de interesse nessas situações envolvendo as companhias que produzem remédios, as empresas que processam os alimentos, as agências de propagandas, as companhias de seguros, os governos, os médicos e até mesmo os cidadãos.

O papel da indústria do óleo promovendo o consumo de gordura trans

No final da década de 50, o pesquisador americano Ancel Keys anunciou que a epidemia de doença cardiovascular havia sido causada pelos óleos vegetais hidrogenados. O interessante é notar que anteriormente esse mesmo pesquisador introduziu a ideia de que a gordura saturada era a verdadeira culpada. A indústria do óleo entendeu isso como uma ameaça a seus produtos e, rapidamente, respondeu com uma campanha publicitária capaz de promover a crença de que era apenas o componente de ácido graxo saturado nos óleos hidrogenados que estavam causando o problema. A indústria então anunciou que mudaria sua composição para óleo parcialmente hidrogenado crendo que essa mudança poderia resolver o problema.

Na realidade, essa alteração nem era tão expressiva, pois mesmo o óleo sendo parcialmente hidrogenado ele manteria um nível de saturação similar, assim como o nível de ácido trans. Dali em diante as gorduras alimentares e as indústrias de óleos promoveram a ideia de que as gorduras saturadas (de animais e gordura do leite) eram problemáticas, e de que os ácidos graxos poliinsaturados (óleo de milho e óleo de soja) promoviam a saúde.

Em 1965 a American Heart Association (AHA) mudou sua posição em relação à dieta boa para o coração retirando de seus escritos a recomendação para diminuir a ingestão de gordura hidrogenada e removendo a referência negativa a respeito das gorduras trans. Com isso, passava a encorajar o consumo de gorduras parcialmente hidrogenadas.

Nos anos seguintes diversas pesquisas como as realizadas pelo Blood Intitutes Lipid Research Clinic, emprestaram credibilidade adicional à visão antigordura saturada, o que deixava claro que as principais interpretações desses estudos foram certamente falhas. Elas diziam que “as medições da ingestão de gorduras não reconhecem a existência de ácidos graxos trans e, consequentemente, eram imprecisas”.

Na verdade, a gordura trans já deveria ter sido banida há décadas, algo que só agora foi levado a público.

Só que o tempo passou e fico me perguntando quantas pessoas já tiveram as suas vidas comprometidas ou reduzidas por conta das informações que não foram colocadas em prática como deveria ter sido feito.

Em 1999, o FDA anunciou que regularia a quantidade de gordura trans nos rótulos e que avaliaria as consequências em alguns anos. Com isso, a indústria de óleo de soja criou uma campanha de boicote econômico que resultou na substituição das gorduras saturadas naturais por óleos vegetais parcialmente hidrogenados, havendo um aumento do nível de consumo de gordura trans em alimentos populares na América, especialmente em restaurantes, padaria, lanchonetes e outros produtores de alimentos processados consumidos largamente. Para você ter uma ideia, uma refeição em um restaurante fornece muitas vezes mais gordura trans do que fornecia há dez anos, por exemplo. Nos dias de hoje uma refeição oferece aproximadamente 19 gramas de gordura trans, quando antes oferecia apenas 2,4 gramas dessa mesma gordura.

Os estudos são bem claros nas consequências adversas das gorduras trans para a doença cardíaca, diabetes, câncer, obesidade, disfunção imunológica e nascimento de bebê de baixo peso. Fica claro, então, que elas afetam a função celular, trazendo consequências devastadoras para a saúde. E não é isso o que você quer, posso apostar!

 

Referências Bibliográficas:

– Know your fats. Mary G. Eny, PhD

– Fats that Heal and Fats that kill. Udo Erasmus          

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Médico, Cirurgião Vascular especializado em medicina preventiva e alta performance. Possui vários artigos publicados em revistas médicas, além de 8 livros com temas relacionados à nutrição, medicina preventiva e esportiva. (CRM 47078)

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