Alimentação

O perigo da dieta com carne magra

Não sei se você já percebeu, mas parece que em todo lugar há um batalhão de pessoas repetindo o mesmo mantra: “coma só carne branca magra”, “prefira frango ou peixe”, “consuma queijo e leite com baixo teor de gordura”, “evite carne vermelha, ela tem mais gordura”, etc, etc, etc… É a mesma ladainha todo o tempo!

Mas por que todos enfatizam em proteína magra?

Aparentemente, isso é originado da “gordurofobia” que estamos vivendo nas últimas décadas. Mesmo muitos simpatizantes de dieta de pouco carboidrato e rica em proteínas repetem isso que já está virando uma oração moderna: escolha carne magra.

Escuta aqui, amigo: a gordura não é sua inimiga!

É isso mesmo! A gordura do tipo certo pode ser sua melhor amiga, como aquele que brincava com você no playground há certo tempo atrás. A gordura natural em laticínios e carnes, incluindo carne vermelha, é boa para a sua saúde! Não é preciso evitar a carne marmoreada ou descartar a gordura – que, a propósito, deixa a carne muito mais saborosa – não sinta-se culpado! Por outro lado, ficar comendo só carne magra pode ser prejudicial.

Pouco gordura pode te deixar com pouca saúde

Devemos consumir uma dieta rica em gorduras boas e com quantidade adequada de proteína para termos boa saúde.Quando não ingerimos gordura, a proteína (aminoácidos) não é completamente metabolizada. Como consequência, as pessoas que seguem esse tipo de dieta, com o transcorrer do tempo, tornam-se mal nutridas e doentes. Muitas morrem por falência cardíaca, mesmo não tendo sinais de doença do coração!

Por isso, consumir carne magra sem gordura pode, na verdade, ser lesivo para a sua saúde.  Quem come proteína magra, sem a adequada quantidade de gordura, desenvolve o que se chama “envenenamento de proteína”, com sintomas que incluem diarreia, dor de cabeça, fadiga, hipotensão arterial, ritmo cardíaco alterado e sensação de desconforto geral. Sem essa necessária gordura, a proteína pode se tornar tóxica. Esse fato é bem conhecido e documentado por séculos!

Aprendendo com nossos antepassados

No passado, os nossos ancestrais caçadores coletores não comiam carne magra. Pelo contrário, as evitavam ao máximo, comendo a carne mais gordurosa possível. Eles se satisfaziam com os miúdos e ossobuco, pois sabiam sem a quantidade de gordura adequada perderiam saúde e até a vida!

Os esquimós do norte do Canadá e Alasca conheciam bem o perigo do envenenamento proteico. Tradicionalmente, sua alimentação era quase 100% carne, mas eles sabiam da importância de ingerir a quantidade adequada de gordura. Para onde quer que fossem, levavam óleos e/ou gorduras para suplementar suas refeições. Antes de ser comida, toda a carne era colocada num prato fundo embebido em óleo. Além de peixes e focas, eles caçavam raposas, ursos e outros animais, mas evitavam o coelho ártico, por ser muito magro – e só o comiam se pudessem associar com muita gordura! Sabiam que se comecem muito coelho, por ser carne magra, teriam problemas de saúde…

O explorador e antropologista Vilhjalmur Stefelisson (1879-1962) escreveu extensivamente sobre os anos em que morou no Ártico Canadense, exatamente como os esquimós primitivos. Ele descreve como, em um determinado momento, foram forçados a caçar e comer caribu magro, por não conseguirem outra carne. Ele sabia que os esquimós relutavam em comer carne magra, mas na falta de outro alimento, comeram o que era possível. Em algumas semanas, todos estavam mortalmente doentes. Só se recuperaram quando conseguiram gordura para se alimentar!

Quando Stefelisson escreveu sobre viver a base de carne e gordura, sem nenhum vegetal, e ainda assim manter boa saúde, foi criticado pelos médicos da época. Para provar que estava certo, ele e um companheiro de viagem aceitaram consumir essa alimentação durante 1 ano, ficando sob observação de uma equipe médica do Hospital Bellevie em New York, no ano de 1928.

Ambos completaram o ano sem qualquer doença ou deficiência, em excelente saúde. Esse caso é frequentemente usado para ilustrar a segurança de se comer carne e demonstrar a segurança de se consumir gordura. Vale lembrar que nesse período cerca de 79% das suas calorias vinham das gorduras; ao contrário de hoje em dia, quando consome-se muito mais carboidratos. Como eu já disse em outro texto, a gordura é muito mais saudável que os carboidratos!

Voltando à pesquisa, na sequência, Dr. Eugene Dubois, que encabeçou essa avaliação, solicitou que eles comessem apenas carnes magras. E o que aconteceu? Em poucas semanas eles estavam apresentando a síndrome da proteína tóxica, tendo que parar a experiência por desconforto, diarreia e perdas de saúde, exatamente como ocorria no Ártico com os esquimós.

Portanto, os seres humanos primitivos já sabiam do perigo de se consumir carnes magras. As dietas com baixo carbo e rica em proteínas que pregam retirar as gorduras das carnes, além de incentivar o consumo de laticínios com baixo teor de gordura, são lesivas, não devendo ser seguidas.

E digo mais: dietas de alta proteína não são a chave do sucesso, mas sim as com proteína em moderação e muita gordura – entre 60 e 85% da dieta.

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Referências bibliográficas:

  • Archives of Internal Medicine March 12, 2012.
  • Diabetologia, 2007; 50(9): 1795-807.
  • J Am Coll Nutr, 2000;19(3):351-360.
  • Arch Intern Med, June 28, 1999;159:1331-1338.
  • Sinal Verde para a Carne Vermelha. Editora Gaia. 2011.
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Médico, Cirurgião Vascular especializado em medicina preventiva e alta performance. Possui vários artigos publicados em revistas médicas, além de 8 livros com temas relacionados à nutrição, medicina preventiva e esportiva. (CRM 47078)
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