Alimentação

Guia do Leite: Qual traz mais benefícios?

Convencional ou Orgânico? Tipo A1 ou Tipo A2?

Vamos abrir essa discussão com uma simples pergunta: o leite é um alimento saudável?

Existem inúmeras controvérsias acerca deste assunto. Muitos acham que crianças e adultos não devem tomar leite, devido especialmente à deficiência de lactase, o que dificulta a sua digestão, assimilação e promove muitos episódios alérgicos. Além disso, o aporte de cálcio para os ossos normalmente citado como o motivo principal do seu consumo, também pode ser obtido de outras fontes.

Sem sombra de dúvidas, o leite orgânico possui mais benefícios do que o leite convencional, e entre estes benefícios está o fato de possuir mais ômega 3 e menos ômega 6. Pesquisas recentes mostram que o leite orgânico contém 25% menos ômega 6 e 62% mais ômega 3, quando comparado com o leite convencional.

Quanto mais ômega 6 houver no alimento, maior será o risco de desenvolvimento de doenças crônicas como problemas cardiovasculares, câncer, depressão, Alzheimer, artrite reumatoide, diabetes entre outras.

Nos últimos 100 anos, a ingestão de ômega 6 na alimentação do mundo ocidental aumentou dramaticamente, enquanto o consumo de ômega 3 caiu assustadoramente. Isso resultou numa relação ômega 3/ômega 6 com níveis indesejáveis, propiciando o desenvolvimento de doenças crônicas tais como as enumeradas anteriormente.

Se você é bebedor de leite, procure usar sempre que possível o tipo orgânico, que é o leite da vaca criada em pasto na maior parte do tempo.

O leite orgânico apresenta quantidades maiores de ácido linoleico conjugado (CLA), um ácido graxo que combate o câncer e a obesidade.

Quando você pensa em uma vaca, imagina-a se alimentando naturalmente de capim das pastagens e não com rações a base de grãos, não é verdade? Quando as vacas passam a se alimentar de grãos, a sua composição corpórea muda, especialmente no que diz respeito ao equilíbrio dos ácidos ômega 6 e ômega 3.

O leite e a carne de vacas criadas em pasto, apresentam altas concentrações de muitos nutrientes como a vitamina E, o betacaroteno e os ácidos graxos ômega 3 e CLA.

Escolhendo um leite de qualidade

A maioria dos leites vendidos no supermercado provem de animais confinados e alimentados com grãos e soja (maior parte transgênica) no lugar da pastagem. Estes animais recebem ainda uma grande quantidade de antibiótico o que os torna biorreatores para a geração de bactérias resistentes a antibióticos. Outro fator que deve ser levando em consideração é o de que estes animais recebem muito hormônio para aumentar a lactação.

Então, se você optar por tomar leite, procure um que seja de qualidade, que seja proveniente de vacas criadas em pasto e, se preferir, de vacas zebuínas, pois elas produzem o leite que chamamos de Tipo A2, onde os riscos alergênicos caem para quase zero.

Leite e intolerância à lactose

Multiplicam-se os casos de intolerância à lactose, no entanto, muitos distúrbios creditados a ela resultam, na verdade, de intolerância às proteínas do leite. Por incrível que pareça, a origem do problema também se vincula à qualidade do gado.

Todas as fêmeas, incluindo a mulher, produzem a proteína beta-caseína A2. Mas o cientista agrícola Keith Woodford, com base em pesquisas, aponta que por volta de 10 mil anos atrás houve uma mutação no gado que gerou a formação de uma proteína aberrante em algumas vacas de origem europeias, classificadas como A1, ou seja, que produzem beta-caseína A1. Esta proteína, presente no leite destes animais, tem sido relacionada com uma série de reações alérgicas e casos de autismo, morte súbita e diabetes tipo1 em crianças e a problemas coronários, neurológicos e colesterol elevado em adultos.

Woodford postula que a intolerância ao leite seja uma consequência dessa variação genética, o que pode ser possível, já que muitos indivíduos que toleram lactose se queixam de problemas com leite.

O doutor Bob Elliot, professor de Pediatria da Universidade de Alckland, levou em conta estes estudos ao observar um aumento do número de casos de crianças com diabetes tipo 1 (que precisa ser tratada com insulina) que moravam na Nova Zelândia, mas eram originárias de Samoa. Inicialmente ele suspeitou de um efeito ambiental e não um fator genético, porque todas as crianças pertenciam à mesma origem étnica. Bob Elliot avaliou as diferenças e concluiu que o problema era ambiental responsabilizando o leite pelo diabetes tipo 1 que afetava as crianças.

Doutor Elliott questionou o Instituto de Pesquisa de Laticínios da Nova Zelândia sobre uma leve diferença que por ventura existisse entre os leites consumidos ali e em Samoa. A resposta foi que não havia diferença. Na realidade, havia uma pequena diferença em relação à caseína: pesquisas mostram que a caseína do leite A1 é diabetogênica. E dessa forma tudo se encaixa!

Muitas pessoas que se dizem intolerantes à lactose talvez sejam, na verdade, intolerantes à beta-caseína A1.

Outro problema com o leite A1 é liberar um peptídeo – um pequeno fragmento de proteína chamado beta-casomorfina-7 (BCM-7) – que, se atravessa a mucosa estomacal e atinge a corrente sanguínea, tem tudo para causar sérios problemas. O corpo reage à BCM-7 e, dependendo da genética de cada um, pode abrir as portas para diversas doenças.

Estudo recentíssimo publicado no International Journal of Peptide Research and Therapeutics mostra que crianças que excretam esse BCM-7 com mais rapidez apresentam melhor desenvolvimento neurológico e capacidade muscular em comparação a crianças que têm dificuldade de excretar BCM-7.

Atualmente, o manejo inadequado do gado parece estar contribuindo para agravar o quadro. Os animais deveriam ser criados livres, em campo fértil, alimentando-se basicamente de pasto. Mas, nos últimos 70 anos a dieta foi incrementada com caroço de algodão, polpa de laranja, farelo de soja, ureia, sulfato de amônio, farinha de carne (já proibida), farinha de penas (proibida), fubá e – pasmem! – esterco de galinha (proibido, mas amplamente usado no Brasil em criações clandestinas).

Com base em pesquisas, sabe-se hoje que todas as raças zebuínas, como Gir, Sindi, Guzera e a raça Guernsey, não foram afetadas por mutação genética e ainda produzem leite A2 em níveis bem próximos a 100%. A Guernsey, que já foi a raça leiteira mais criada no Brasil, produz só o leite A2. É seguida pela raça Jersey, com 75% de leite A2 e 25% de leite A1 (alergênico). Já a Holandesa produz 50% de leite A1 e 50% de leite A2.

Esta é uma questão importante: escolher leite e derivados de vacas predominantemente A2. O Gir leiteiro, que hoje é o nosso produto genético mais exportado, pode muito bem ser a solução deste problema, tanto aqui como fora do país, se os produtores souberem trabalhar bem o produto. A Nova Zelândia já registrou o nome “A2 Milk” e está certificando laticínios e produtores que usem apenas leite A2 de gado criado a pasto. Um bom exemplo a seguir. Seria muito interessante se pudéssemos ter no mercado leite A2 e produtos derivados facilmente reconhecíveis pelos consumidores.

BCM -7 e doenças  

Há estudos muito interessantes realizados pelo professor Robert Cade, na Universidade da Flórida, Estados Unidos, mostrando que a BCM-7 está envolvida com sintomas de autismo. Outros estudos evidenciam a participação de BCM-7 na destruição de ilhotas do pâncreas, produtoras de insulina.

Pode-se observar que a sequência de aminoácidos das ilhotas do pâncreas é muito similar à da BCM-7. Como sabemos que o diabetes tipo 1 é uma doença autoimune, o que significa que o organismo ataca a si próprio, presume-se que ele tente atacar a BCM-7 e, ao identificar a sequência de aminoácidos das ilhotas como BCM-7, também as ataca.

Em relação ao autismo, uma doença crescente nos Estados Unidos, já se observou que os pacientes apresentam melhoras significativas quando param de consumir leite A1 e produtos com glúten. Diversos grupos estudam o assunto, mas ainda não se chegou a resultados definitivos. Há ainda uma suposição de que doenças psicotrópicas, como doença bipolar, depressão crônica e esquizofrenia podem estar relacionadas com BCM-7.

Em relação à doença cardíaca, existem várias evidências de que ela esteja associada à BCM-7. Nos países onde ocorre alta incidência de doença cardíaca, a beta-caseína A1 é bastante consumida. Sabe-se ainda que se alimentarmos um grupo de ratos com leite A1 e outro com leite A2, ocorre uma formação de placas arteriais no grupo do leite A1, enquanto no outro grupo não.

Hoje já se admite que a doença cardíaca seja uma doença autoimune essencialmente causada por inflamação nas artérias. Portanto, quem consome leite e derivados com muita frequência está mais predisposto à doença cardíaca se o leite consumido for o A1.

Então, respondendo a nossa pergunta do início, o leite só será saudável se for proveniente de fontes saudáveis e garantidas, como é o caso do Tipo A2.

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Referências Bibliográficas:

JAMA Pediatrics.   July 1, 2013

– PLOS One.  Dec 9, 2013

– Livro Sinal Verde para a Carne Vermelha. Editora Gaia. 2011

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Médico, Cirurgião Vascular especializado em medicina preventiva e alta performance. Possui vários artigos publicados em revistas médicas, além de 8 livros com temas relacionados à nutrição, medicina preventiva e esportiva. (CRM 47078)

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